Medicamentos: Contradições e Fatos na Clínica Junguiana
Há quem apoie e quem descrimine seu uso, mesmo dentro de uma psicólogia clínica bem estruturada existem opiniões divergentes, e você? O que pensa sobre o uso de remédios para o tratamento psicológico? Será que seus efeitos substituem um bom processo de análise? São essas perguntas que esse artigo busca responder.
A Origem dos Psicofármacos: Descobertas acidentais
A história da psicofarmacologia moderna é marcada por um paradoxo fascinante: quase nenhum dos medicamentos psiquiátricos fundamentais utilizados hoje foi criado originalmente para tratar o sofrimento psíquico. Eles foram, em sua maioria, descobertas acidentais — frutos do que a ciência chama de serendipidade.
Na década de 1950, o cenário da psiquiatria passou por uma virada drástica. Até então, as intervenções para quadros graves eram extremamente limitadas e invasivas. A transformação começou nos laboratórios de química sintética, inicialmente focados no desenvolvimento de anti-histamínicos, corantes e anestésicos
A grande contradição histórica desse marco é que a indústria descobriu a molécula antes de compreender a neurobiologia do transtorno. A partir da observação de como a medicação alterava o comportamento, a ciência passou a deduzir como o cérebro funcionava — dando origem às teorias dos neurotransmissores
A Evolução dos Psicofármacos
Após as descobertas pioneiras dos anos 1950 e 1960, a psiquiatria passou por um período de consolidação teórica e técnica nas décadas seguintes, alterando a relação da sociedade com o sofrimento psíquico.
Nas décadas de 70 e 80 os psicofármacos apresentavam efeitos colaterais perturbadores, alto risco de intoxicação, incluindo tremores, rigidez muscular e outros efeitos que concorriam com o sofrimento de não se medicar. Esse cenário gerava um grande dilema na relação terapêutica: muitos pacientes abandonavam o tratamento devido ao desconforto físico provocado pelos remédios ou pelo estigma de parecerem “sedados/anestesiados”.
Mas em 1987 surgiu o Prozac (Fluoxetina). Por apresentar um perfil de segurança significativamente superior e efeitos colaterais muito mais toleráveis em comparação aos seus antecessores, o Prozac reduziu drasticamente o risco de intoxicação fatal e a necessidade de sedação profunda.
Essa transição não apenas melhorou a adesão ao tratamento, mas também alterou profundamente a percepção social sobre a medicação psiquiátrica: o foco deslocou-se do controle de crises graves e da contenção para a promessa de otimização da qualidade de vida e remissão sintomática, transformando o fármaco em um fenômeno cultural e abrindo espaço para a popularização do debate sobre a saúde mental no cotidiano.
Após o impacto inicial do Prozac no final dos anos 80, a medicina psiquiátrica e a percepção social sobre a saúde mental passaram por novas fases marcadas por expansão, sofisticação e, posteriormente, um olhar crítico.
O sucesso da fluoxetina abriu caminho para toda uma classe de remédios de mesma categoria (ISRS), como a sertralina, paroxetina, citalopram e escitalopram. Logo em seguida, surgiram outras categorias de medicamento (IRSNs), como a venlafaxina e a duloxetina, além de opções como a bupropiona. Esses fármacos trouxeram a possibilidade de lidar com transtornos de ansiedade, TOC e pânico, além da própria depressão.
Paralelamente, a década de 90 assistiu à revolução no tratamento dos quadros psicóticos e do transtorno bipolar com a introdução de medicamentos como risperidona, olanzapina, quetiapina e aripiprazol. Diferente dos neurolépticos clássicos das décadas de 70 e 80, os antipsicóticos atípicos reduziram drasticamente o risco de efeitos colaterais, embora tenham trazido novos desafios clínicos, como a tolerância metabólica e o ganho de peso.
Nos anos 2000 até hoje, conforme o uso de psicofármacos se tornou massivo e cotidiano, o debate social e médico evoluiu: Surgiram questionamentos sobre o limite entre tratar o sofrimento patológico e patologizar reações emocionais normais às dores da existência. E também surigu uma visão integrativa: A psiquiatria e a psicologia clínica passaram a enfatizar que o medicamento, embora fundamental para a estabilização e redução do sintoma, não substitui o trabalho elaborado da psicoterapia, a reorganização do estilo de vida e a busca por sentido.
Atualmente, o foco da psicofarmacologia volta-se para a medicina de precisão e para mecanismos de ação inovadores, pesquisas avançadas com terapias assistidas por psicodélicos para casos de depressão resistente ao tratamento convencional.
A Medicação e a Clínica Junguiana
A psiquiatria contemporânea e a psicologia clínica convergiram para a compreensão de que o medicamento, embora fundamental para estabilizar crises e reduzir o sofrimento agudo, não substitui a elaboração psíquica necessária para a transformação do indivíduo.
Quando os sintomas estão em níveis avassaladores, o ego perde a capacidade de simbolizar e refletir, ficando refém de defesas primitivas de sobrevivência psíquica — como a dissociação, o congelamento emocional ou a somatização. Nesses casos, o remédio funciona como uma estrutura de suporte temporária que reestabelece a margem de segurança do sistema nervoso.
No entanto, o sintoma não é apenas um “defeito biomédico” a ser eliminado, mas também uma comunicação carregada de sentido sobre o desenvolvimento psíquico que foi interrompido. É a partir da estabilização gerada pelo tratamento medicamentoso que o trabalho terapêutico pode atuar em profundidade em diversas camadas como: Identificar como experiências precoces de sobrecarga emocional moldaram a estrutura do paciente, levando a padrões de autocontrole ou desconexão afetiva. Resgate da Capacidade de Simbolização: traduzir o sofrimento em linguagem, imagens e significados reais para a sua história cotidiana. Conduzir o indivíduo para além da simples “ausência de sintomas”, promovendo o amadurecimento e a reconexão com a própria vitalidade psíquica. Questões existenciais que geram angustia, como por exemplo sobre a finitude da vida, ou quem sou eu ou qual é meu propósito de vida, só podem ser elaboradas através de um processo terapêutico. Em uma de suas recentes publicações o psiquiatra fundador e médico diretor do Trauma Center (Centro de Trauma) em Brookline, Massachusetts, Bessel van der Kolk diz:
“Os medicamentos podem desativar os alarmes alterados do cérebro, mas não conseguem ensinar uma pessoa a viver. Remédios não mudam a maneira como pensamos sobre nós mesmos ou como nos relacionamos com os outros. Eles podem tornar o sofrimento suportável e abrir um espaço de segurança no sistema nervoso, mas a verdadeira transformação depende de recuperar a conexão com o próprio corpo, processar as memórias dolorosas e reconstruir a capacidade de amar e criar.”
— Bessel van der Kolk, O Corpo Guarda as Marcas (Cap. 3).
Em suma, a medicação acalma a tempestade neuroquímica para que a análise possa investigar a origem do vento. O remédio viabiliza o processo, mas é o trabalho terapêutico que viabiliza a transformação duradoura e a restauração do desenvolvimento do Ser. Assim também pensa Andrew Solomon, professor de Psicologia Clínica no Columbia University Medical Center e presidente do PEN American Center, como cita em seu livro O Demônio do Meio-Dia:
“Os remédios tratam o corpo e a mente; a psicoterapia trata a alma. A medicação te dá a estabilidade para conseguir ficar de pé, mas é a psicoterapia que te ensina para onde caminhar. Os remédios lhe devolvem os tijolos, mas é a análise que reconstrói a casa.”
— Andrew Solomon, O Demônio do Meio-Dia (Cap. 3).
Referências Bibliográficas
VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Tradução de Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.
SOLOMON, Andrew. O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão. Tradução de Rubia Prates Goldoni e Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
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